Atenção
Médica alerta para possível onda de diagnósticos tardios de câncer
Coordenadora da Unidade de Hematologia e Oncologia do Hospital HE-UFPel, Cristiane Petrarca diz que restrições da pandemia mudaram fluxo de atendimentos
Divulgação -
Frente a tantos cuidados com o coronavírus e as consequentes restrições que precisaram ser adotadas para evitar a disseminação e o avanço da pandemia, um alerta tem sido feito por médicos: os possíveis agravamentos de outros problemas de saúde que estejam deixando de ser monitorados.
É o que ressalta a médica oncologista Cristiane Petrarca, coordenadora e responsável técnica da Unidade de Hematologia e Oncologia do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel). Professora adjunta em Oncologia na universidade, integrante do Grupo Brasileiro de Estudos em Câncer de Mama LACOG-GBECAM e membro da European Society for Medical Oncology (ESMO), a profissional trata do assunto nesta entrevista em que aproveita a data que marca o Dia do Oncologista, nesta sexta-feira (9), para reforçar a necessidade de acompanhamento e diagnóstico precoce para ampliar as chances de sucesso nos tratamentos.
Qual o principal desafio de um médico oncologista?
Cristiane Petrarca - O principal desafio, além de diagnosticar e estadiar* adequadamente o paciente, é se de utilizar avanços tecnológicos, evidencias científicas, novas medicações, adequando à realidade do paciente, à sua condição clínica e a tratamentos que realmente possam trazer ganho. Seja em maior curabilidade, ganho de sobrevida, ganho no controle de sintomas ou simplesmente melhorando a qualidade de vida.
*Estadiamento é o processo para determinar a localização e a extensão do câncer presente no corpo de uma pessoa. É a forma como o médico determina o avanço da doença no organismo de um paciente.
Nos últimos tempos os avanços científicos e tecnológicos imprimiram uma nova perspectiva no combate ao câncer. Na sua avaliação quais são as grandes conquistas destes novos passos?
CP - Os avanços científicos e tecnológicos na área de oncologia têm acontecido em uma velocidade estonteante. Tecnologias para identificar alvos terapêuticos no tumor ou em biópsia líquida, por exemplo, permitem personalizar o tratamento em muitos casos. Hoje, além da quimioterapia e hormonioterapia clássica, contamos com imunoterapia, anticorpos monclonais, medicações que bloqueiam vias específicas da cascata celular que conseguem imprimir resultados, até antes, inimagináveis.
A pandemia trouxe novos desafios para os pacientes oncológicos, de que forma afetou na continuidade de grande parte dos tratamentos?
CP - Trabalhar com oncologia durante a pandemia é um desafio constante. Adaptar e adequar os tratamentos, de forma a permitir a continuidade ou necessidade de troca dessas terapêuticas, além de aprender sobre uma nova doença que pode afetar gravemente pacientes vivendo com câncer foi e é um grande desafio. A oncologia foi uma especialidade que nunca deixou de atender. Os pacientes mantiveram os seus tratamentos ou os tiveram adequados caso a caso. No entanto, tanto no sistema privado como público o diagnóstico precoce ficou muito comprometido, com maior intensidade no segundo. Seja pelo temor do contágio, ou a indisponibilidade de atendimento médico ou exames, os diagnósticos precoces, os rastreios, as investigações iniciais dos pacientes pouco sintomáticos, foram comprometimentos.
Sabemos que as prevenções, os exames de rotina, devem ser mantidos. É possível que após a pandemia tenhamos uma onda de diagnósticos tardios em função destas restrições deste período. Tal fato prejudica os resultados terapêuticos. Os serviços de oncologia, tanto público como privado, mantiveram os atendimentos. No entanto, houve a necessidade de adaptação constante e modificação no fluxo, conforme a evolução da pandemia, para redução do risco de contágio em serviço tão vulnerável. Os cuidados com a COVID-19 continuam, assim como o tratamento e a prevenção do câncer.
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